Outro Olhar: Falência múltipla dos órgãos (HUCAM)

 

Falência múltipla dos órgãos

gab_meira@hotmail.com

Era dia 2 de abril, última segunda-feira, quando a Ufes viveu um contraste gritante. Era dia da posse do novo reitor e, no campus de Goiabeiras, os funcionários passeavam lentamente com seus cortadores de grama para deixar tudo pronto para a solenidade. Enquanto isso, no campus de Maruípe, os estudantes viviam o mundo real: era dia de tentar salvar o Hospital Universitário.

Criado em 1968, o Hucam atende pelo SUS e funciona como escola na formação dos estudantes da Ufes. Contudo, embora essencial para a universidade e vital para os pacientes, o descaso público transformou o hospital, nas palavras de um ex-aluno, em uma "franksteniana colcha de retalhos".

Por lá falta o básico para o trabalho. Embora seja o maior complexo médico-hospitalar do Estado, o Hucam encontra-se, hoje, sem o pessoal necessário. E o mais surpreendente é que não faltam médicos, mas sim os profissionais técnicos. A "burrocracia" por trás das contratações tem feito o hospital fechar as portas aos poucos e, mesmo não estando em Goiabeiras, parece vir afundando no mangue.

Para se ter noção do que o governo anda ignorando, basta ver os dados. Por mês, o Hucam atende a 16 mil consultas, realiza 10 mil internações, cerca de 700 cirurgias e possui 314 leitos. Para tentar igualar-se a tal capacidade, seria preciso juntar alguns dos gigantes da rede particular de saúde. Mesmo assim, isso parece irrelevante para os governantes, que cada vez mais aplicam recursos no setor privado.

Embora essencial para a Ufes e vital para os pacientes, o descaso público transformou o hospital em uma “franksteniana colcha de retalhos”.

Com a falta de funcionários, a negativa do governo federal em realizar concurso, o descaso do governo estadual e os olhos fechados da Prefeitura de Vitória, o hospital trabalha com menos da metade de seus leitos e, neste momento, o pronto-socorro e as enfermarias encontram-se, simplesmente, fechados. As internações estão suspensas e as alas vazias parecem pedir socorro por atenção, por zelo e, principalmente, por competência.

Agora, como já diria o sábio brasileiro, "nada é tão ruim que não possa piorar". E o Hucam é exemplo vivo (quase morto...) de tal ditado. Isso porque, no fim de março, o hospital perdeu mais 125 funcionários com o término de um convênio com a Prefeitura de Vitória. Diante do quadro insustentável, os estudantes não hesitaram: vestiram seus jalecos e foram às ruas.

Caminhando do campus de Maruípe até Goiabeiras, os cerca de 800 universitários organizaram-se na frente do teatro da Ufes, onde aconteceria a posse do novo reitor. Ao contrário de outros manifestantes da Federal, os jovens de branco não fecharam o trânsito, nem promoveram baderna. Resultado: foram recebidos pelo reitor em reunião extraordinária e puderam ler seu manifesto no início da solenidade de posse.

A partir dali, algumas providências começaram a ser tomadas. Buscando solucionar a falta de funcionários, os estudantes reuniram-se com o Conselho Universitário na terça-feira. E como a saúde não espera, e os agentes públicos exibem seu descaso, os jovens agora precisam da sociedade. 

A “burrocracia” tem feito o hospital fechar as portas aos poucos e, mesmo não estando em Goiabeiras, parece vir afundando no mangue.

Assim, estão enviando cartas em massa aos órgãos federais e colhendo assinaturas em prol do hospital. Precisam, de todo modo, despertar a população para a constatação de um dos organizadores do protesto: "Nosso hospital está abaixo do fundo do poço".

O poço, de fato, já foi ultrapassado e os responsáveis escondem a realidade. Exemplo disso é que, cerca de uma semana após o pronto-socorro ser fechado por falta de pessoal, a Ufes iniciou uma obra na ala, tentando encobrir, com as reformas, o real motivo do fechamento. Tudo, é claro, "para melhor atendê-los".

Em época de campanha, os candidatos a excelências sempre defendem a saúde. Esse é, então, o momento de provar o que dizem. Do contrário, terão de ser internados com sintomas de amnésia. Vale avisar, ainda, que de nada adiantará tentar encobrir o problema, pois tudo está e virá escancarado para o povo, afinal, toda essa nobre e trabalhosa luta tem um propósito claro: impedir que o Hucam venha a óbito por falência múltipla dos órgãos.

 

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